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Notícias

23/04/2019

Transformação de escolas AEE nas escolas

Escola aposta na parceria com a comunidade e melhora desempenho

Por: Bárbara Batista

Escola aposta na parceria com a comunidade e melhora desempenho

EMEF Domitília Assunção, de Horizonte (CE), que tinha os piores índices educacionais do município, cresce acima da média e torna-se referência

Situada na localidade de Mundo Novo, em uma área rural de difícil acesso no município de Horizonte, interior do Ceará, a EMEF Domitília Assunção de Menezes registrou um dos piores índices educacionais da região no ano de 2014.

Segundo a atual coordenadora pedagógica, Elaine Mendes Machado, naquele ano, diante do quadro crítico evidenciado pelo SPAECE – sistema de avaliação do estado do Ceará – a gestão escolar iniciou uma busca sistemática por metodologias de ensino capazes de corrigir os erros e alterar os resultados de aprendizagem.

“Nós nos víamos no mapa do Estado do Ceará, dentro do município, como uma das escolas com os índices mais baixos e pedíamos socorro. O que fazer? Como fazer? Por que que a nossa escola não consegue?”, relembra Elaine, que naquela época lecionava nas séries iniciais do Ensino Fundamental.

Comissão Mista da escola Domitília Assunção conta com estudantes, membros da equipe escolar, familiares e pessoas da comunidade

Foi neste contexto, que a secretaria municipal de Educação de Horizonte apresentou à escola a proposta de Transformação trazida pelo projeto Comunidade de Aprendizagem (CA). Em 2015, a escola aderiu ao projeto e deu início à etapa dos Sonhos. Melhorar os índices de aprendizagem era o principal desejo compartilhado pela equipe. Ter um novo espaço, melhor estruturado, e uma biblioteca foram os sonhos prioritários eleitos pela comunidade.

Nestes últimos anos, a escola Domitília Assunção vem demonstrando uma surpreendente capacidade de superação, e os indicadores educacionais comprovam este avanço. Entre 2014 e 2017, a escola superou praticamente todos os marcos, ano a ano, em curva ascendente, na avaliação estadual (SPAECE). Na prova de Língua Portuguesa, o 5º ano saltou a nota de 202,7 para 262,3, crescendo 60 pontos. O 9º ano foi de 236,7 a 275,3, subindo 38 pontos. Na avaliação de Matemática, o 5º ano passou de 220,2 a 268,5, elevando a nota em 48 pontos; e o 9º ano, registrou uma pequena queda de 248 para 246,2, seguindo, numa escala menor, a tendência de grande parte das instituições, que em geral apresentam baixa das médias de Matemática nos anos finais do Fundamental 2.

A escola saiu, portanto, de um nível crítico que a colocava entre as piores instituições educativas do município para se tornar uma das escolas de referência de Horizonte, em 2017. De lá pra cá, além da melhoria nos índices, a escola ampliou as esferas de participação por meio da criação da Comissão Mista e conquistou, com a ajuda da comunidade, seu prédio novo, com espaço amplo e uma biblioteca organizada.

“Eu acho que o principal fator [para os avanços] foi uma mudança de postura nossa, de escutarmos os nossos alunos e a comunidade, porque ela precisava fazer parte deste processo”, acredita Elaine, para quem CA trouxe respostas com o rigor necessário, mas sem impor um modelo fechado ou desconectado da realidade da escola.

Por trás dos números, está o engajamento e o diálogo aberto entre comunidade e escola, além do apoio da secretaria de Educação, que compreende a relevância das instâncias democráticas de participação.

 

Democratizar a participação

A experiência em Comunidade de Aprendizagem demonstra que estudantes aprendem de forma significativa quando se enxergam e se reconhecem na proposta pedagógica da escola. Para que isso aconteça, é preciso compreender e contemplar as Inteligências Culturais das crianças e de suas famílias, promovendo o Diálogo Igualitário e incorporando-as como participantes ativas do projeto educativo.

“O que nossos alunos precisavam era de espaço para aprender um com o outro, mostrar o que eles já conheciam, o que já sabiam, e não só do conteúdo imposto”, reflete a coordenadora. Ao ampliar os espaços de participação de estudantes, familiares e pessoas da comunidade, a escola comprova que educar na diversidade, incluindo no dia a dia da escola as Inteligências Culturais, não apenas é possível, mas é o que faz a diferença.

Unidos à equipe pedagógica, funcionários, familiares e ex-alunas se mostram igualmente comprometidos com o desenvolvimento do projeto e dedicam às crianças tempo, esforço e saberes de vida. Na Domitília, a trajetória de cada voluntário, por mais simples que seja, converte-se em uma contribuição extraordinária.

Seu Francisco, funcionário da escola, participa como voluntário dos Grupos Interativos

Seu Francisco, por exemplo, é funcionário da escola e se divide entre portaria, serviços gerais e o trabalho como voluntário nos Grupos Interativos. Francisco foi criança num tempo onde as distâncias pareciam maiores pela ausência quase completa de transporte e pela precariedade das políticas públicas locais. As distâncias sociais impediram que ele e outras tantas crianças da localidade seguissem estudando.

Mas é justamente aí que mora o extraordinário de Seu Francisco: as dificuldades enfrentadas pelo menino, não impediram que este homem se convertesse em um dos voluntários mais comprometidos com o processo de aprendizagem das crianças da Domitília Assunção. “Sempre que ele tem um tempinho livre, ele se dispõe a participar”, comenta Elaine. E participa com prazer. “Tanto eu gosto de estar no meio deles ali, como eles gostam de mim, né? Aí eu adoro!”, declara o funcionário.

Engajada como ele, é a ex-aluna Aline Rodrigues do Nascimento, que participa ativamente dos Grupos Interativos e da Comissão Mista. Aline estudou na escola do pré ao nono ano. Em 2015, enquanto cursava Pedagogia, foi convidada pela coordenadora pedagógica para contribuir como voluntária das Atuações Educativas de Êxito de CA, e aceitou. “Me motiva ver que esta escola onde eu estudei está grandiosa, com vários projetos e que as crianças estudam e aprendem e estão felizes”, diz Aline.

Evidências apresentadas pela comunidade científica internacional apontam que a diversidade de interações vividas pelos estudantes impacta positivamente no resultado de aprendizagem e nas relações de convivência dentro da escola. Portanto, quanto mais diversificado o perfil dos voluntários, maiores as possibilidades de aprendizagem.

                  Leia mais: Caderno de Formação - Grupos Interativos

 

Segundo a coordenadora pedagógica, hoje os Grupos Interativos acontecem em praticamente todas as disciplinas. “Nós realizamos com Português, Matemática, Geografia, Ciências, já fizemos em Educação Física, já fizemos nas aulas de História e agora vamos iniciar na Língua Inglesa”, explica Elaine.

Para a professora Neuliane Vieira dos Santos, que desenvolve os Grupos Interativos nas aulas de Língua Portuguesa, a dinâmica criada com ajuda dos voluntários permite ao professor uma observação mais cuidadosa da turma, dos ritmos e das dificuldades de cada aluno.

“Você tem uma forma de passar em cada grupo, de observar, de ter aquele olhar diferente, você consegue identificar aquele aluno que está se destacando mais, aquele aluno que está com dificuldade de aprendizagem”, comenta Neuliane, ao defender que é esta observação que vai possibilitar que o professor avalie melhor o trabalho e se replaneje para garantir, com mais qualidade, a aprendizagem de todos.

Ao final das atividades, a professora senta com os voluntários para trocar percepções sobre a evolução dos grupos, o que também contribui para avaliar as práticas pedagógicas e reorganizar o processo de ensino-aprendizagem.

 

Aprender com prazer

Neuliane chegou na escola no ano passado e se apropriou muito rapidamente do desenvolvimento das Tertúlias e dos Grupos Interativos em suas turmas, graças ao apoio recebido da gestão. “Quando eu cheguei na escola eu fui muito bem acolhida pela equipe de um modo geral, tive toda parceria da direção e da coordenação na elaboração das atividades”, relata a professora.

O acolhimento é uma marca da Domitília Assunção. Como houve uma renovação no quadro de professores nos últimos anos, a coordenadora Elaine procurou fazer essa costura com muito cuidado, para apoiar a equipe e dar o tempo de adaptação necessário para que as ações do projeto fossem desenvolvidas.

Elaine acredita no poder transformador da experiência, por isso convida os professores que chegam sem conhecimento prévio do projeto para participar das Atuações Educativas de Êxito (AEEs) como voluntários e fazer um teste depois com suas turmas. A ideia é que os educadores possam se apropriar da prática regular das AEEs com leveza e tranquilidade.

Estudantes e voluntárias estudam juntas durante os Grupos Interativos

A relação respeitosa e igualitária entre estudantes, professores e voluntários é perceptível nos Grupos Interativos que são realizados ao ar-livre, no pátio, aproveitando a sombra e o vento fresco da área externa. O clima do espaço e a integração entre os participantes fazem dos Grupos Interativos um momento muito prazeroso.

Neuliane conta que a escola organiza um calendário mensal para dividir a realização das AEEs no pátio e que quando os encontros são divulgados há uma grande expectativa das turmas para saber quando será a sua vez. Há pouco mais de um ano no projeto, ela relata, satisfeita, a experiência que teve com uma turma do sexto ano, que ela define como “elétrica”, durante a Tertúlia Literária.

“Eu me surpreendi com a forma como eles interagiram, como eles se expressaram e como compreenderam bem [a proposta]”, conta. Ver aquela turma “elétrica”, compenetrada, participando ativamente, questionando-se de forma nova sobre um texto já conhecido, fez com que a professora se encantasse de vez com as Tertúlias.

Neuliane procura trazer a ludicidade da experiência de 19 anos como professora dos anos iniciais do Fundamental, para desenvolver as AEEs com turmas do 6º ao 9º ano. “Dom Quixote” e “O jardim secreto”, foram as últimas leituras feitas junto às turmas.

A curiosidade e a coragem da personagem em descobrir o que tinha por trás da porta, foi o que prendeu a aluna Letícia Falcão, do nono ano, na obra de Frances Burnett. “O que eu mais gosto [na Tertúlia] é da expressão de opinião que cada pessoa pode dar. Eu acho que a questão do respeito com a opinião de cada pessoa nos ajuda a conviver melhor”, diz Letícia.

Ter sua fala respeitada e parar para ouvir com atenção o que o colega tem a dizer são os pontos destacados pelos estudantes que comentam suas experiências nas Tertúlias e Grupos Interativos. “Você percebe que sempre pode aprender mais quando ouve a opinião de outras pessoas”, acredita Erica de Castro Silveira, do nono ano.

Além dos Grupos Interativos e da Tertúlia, a escola iniciou, este ano, a Biblioteca Tutorada, que está sendo acompanhada pela professora de Inglês com algumas turmas. “Nós sonhávamos com o dia que nós teríamos uma biblioteca funcionado, que nós teríamos nossos alunos aprendendo as quatro operações e hoje esse sonho já é uma realidade”, comemora Elaine, que agora se planeja para iniciar a Formação de Familiares e realizar mais este sonho compartilhado pela comunidade.

Para a coordenadora, o sentido da Educação está justamente nesse movimento constante de transformação: “educar é ser transformador, é transformar-se, é ver o novo todos os dias”, resume.

 

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